terça-feira, 23 de março de 2010

A PROPÓSITO DAS PEDRAS QUE SE ATIRAM

Marc Chagall, Lovers in the red sky, 1950
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Em cada momento a Igreja, transportando aquela de todos os tempos e também aquela que de há muito atira pedras é, ela também, a dos melhores, a daqueles muitos que sempre se entregaram e sacrificaram pelos mais fracos e pelos seus irmãos.
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Ainda Domingo passado, Quarto Domingo da Quaresma, foi lido o Evangelho da mulher adúltera trazida à presença de Cristo para ser julgada e em que Este respondeu que quem não tivesse pecado lhe atirasse a primeira pedra ...
Escrevo-Vos com o coração a sangrar e o que Vos escrevo faço-o por entender, em consciência, livremente e como crente, dever fazê-lo:
Em tempos, em tempos de outro grau de exigência o que nada desculpa, descomprometido que eu vivia e num contexto público de engate, desculpem-me a rudeza da expressão mas assim se designa em linguagem comum a situação reportada, seduzi jovem pessoa que sem que o soubesse não era ainda maior de idade.
Tal aconteceu uma vez e num tempo em que no jogo da sedução não se pedia, à cabeça, o bilhete de identidade em circunstâncias que tais.
Pedir-se-á hoje ...?
Foi num período de boémia e relações precárias como julgo que com muitos de nós e os da minha geração em particular terá acontecido, que faz parte da minha história e que nem por um momento de mim pretendo escamotear nem de Vós ocultar ...
Não serei pois eu a atirar a primeira pedra!
Ela foi, aliás, atirada por parte de quem, arvorando-se em bastião e reserva da moral e dos bons costumes e logo pelo encobrimento institucional, tal menos se esperaria embora talvez já de há muito se intuísse ou disso se tivesse maior ou menor consciência e percepção.
Encobrimento não de um encontro casuístico e fortuito, público para mais e que logo aqui o exponho, mas antes de práticas sistemáticas, deliberadas e persistentes no tempo!
Nem de pecados, em sentido estrito, em rigor aqui se fala, crimes são crimes e destes e da cumplicidade que os rodeou não há como dar-lhes a volta!
E se eu não quero atirar achas para a fogueira nem pedras, de facto, impõe-se sublinhar o que não tendo relação directa importa, todavia e nesta oportunidade, uma vez mais perguntar.
Assim:
Deverá o adultério ser liminarmente apedrejado e sujeitos aqueles que o praticam à estigmatização no interior da Igreja que é, em si mesma, apedrejamento simbólico, psicológico!?
Deverão os divorciados, esses também, ter um estatuto de discriminação no seio da Igreja!?
E os homossexuais que nas suas opções livremente feitas e assumidas, entre adultos e iguais e no igual direito à felicidade que lhes assiste e que nem por um momento poderão ser confundidos com os pedófilos, deverão, eles também, ser discriminados!?
Contraceptivos e que tais ... que tem a Igreja que meter o bedelho!?
Tecnologias artificiais de reprodução ...!?
Que insuperável problema existirá no casamento dos sacerdotes e já que sendo eu pecador como os demais e casado, com Cristo também o posso ser e sou!?
Ordenamento de mulheres ...!?
E o que é isso da castidade ...!?
Conspurcar-se-á esta pela vida sexual na ambiguidade recidiva e fantasmática que prevalece no interior da Igreja do tão propalado, à revelia de Cristo, pecado carnal!?
Não, não vale mais fazer batota!
Que quero com isto dizer?
Quero tão só dizer que é não apenas ilegítimo como incongruente e logo na perspectiva doutrinal, enaltecer, por um lado, a família tradicional como paradigma e panaceia para todos os males, como se ela tivesse alguma e ainda que ténue semelhança com a Sagrada Família (*) e por outro lado invocar que é no seu interior, como se tal justificasse os crimes de pedofilia no seio da Igreja, que é no seu interior, no interior da família, escrevia, que a pedofilia encontra o seu principal esteio ...
Em que é que, afinal, ficamos!?
Não, não sou eu que atiro pedras mas talvez fosse tempo de decidida clarificação, de a Igreja se recolher a uma atitude de humildade não condenatória e nem persecutória, discriminatória tão pouco e verdadeiramente confessional, em suma, despojando-se de tanta pedra que persiste em atirar e abrindo-se, verdadeiramente, ao Mundo sem ao abrigo dele se pretender, que pretensão (!), refugiar na justificação do injustificável!
Crime é crime e este não pode passar incólume e como já diz o ditado que ora invento, quanto mais levianamente apontas o dedo mais vejo em ti o mal, esse sim (!), que está para lá e escondido, daquilo que apontas!
À Vossa reflexão o que se segue.
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(*) Remeto-Vos para as minhas páginas de Dezembro de 2009:
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Março de 2010

13 comentários:

manuela baptista disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
manuela baptista disse...

primeiro:

magnífica reflexão!

seria bom que todos os católicos reflectissem assim despudorada e corajosamente sobre estas questões e depois pudessem pronunciar-se sobre elas.
Mas a Igreja não é uma instituição democrática e aí não há volta a dar...

Segundo:

caro bispo,

"sociologicamente" falando, não há como tu

para meter os pés pelas mãos, para encontrar "falhas" nos outros e não ver as traves(?), eu diria postes, nos teus olhos

para conseguires este efeito em mim, chamado "vontade de te atirar uma enorme pedra"!

terceiro:

não basta à Igreja, pedir perdão pelos CRIMES cometidos contra as crianças, é urgente a criminalização, julgamento e condenação desses padres e a sua consequente expulsão.

Até aqui, afastam-se e privam-se dos sacramentos, os divorciados e os homosexuais, mas aos abusadores reconhecesse-se-lhes o direito a perdoar os pecados?

tanta falsidade!

quarto:

se eu não soubesse separar a hierarquia da Igreja, da minha Fé, já há muito tempo que não punha os pés em nenhuma cerimónia

quinto:

ressalva para os bons, generosos, justos, compassivos, carinhosos, empreendedores, criativos e belos sacerdotes que existem por aí!

Manuela

Filomena disse...

Amigo!

O seu texto está simplesmente grandioso.

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Ei Manela ...!

Isso é que é extrair o implícito do que nesta página se encontra!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Março de 2010

Jaime Latino Ferreira disse...

FILOMENA CLARO


Querida Amiga,

O meu muito obrigado!

Um beijinho


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Março de 2010

J. Ferreira disse...

Meu caro Jaime,

Arredado destas lides, (sabes porquê) não resisto deixar esta oportunidade para :

1.Reconhecer e enaltecer a tua coragem por abordares este tema tal como o forcado da cara desafia e enfrenta o touro (desculpa lá a analogia)

2.Subscrever a assertividade daquilo que a Manuela escreveu, comentando, a propósito. (que pujança, que sagacidade, que inveja, a minha,claro!)

Como Tertuliano - em nada relacionado com o escritor eclesiástico dos primórdios da Antiguidade - mas antes como membro singular, modesto, do Grupo com este nome apelidado, (olá Manuela!) confesso, Jaime, me teres trazido, para além do já meu confessado reconhecimento pela tua coragem, recordações de tempos passados, neste caso a propósito da “lapidação”

Recordo um filme (preto e branco) baseado no livro de Nikos Kazantzákis (Zorba, o grego) em que, para além das interpretações geniais de Anthony Quinn e Alan Bates, a personagem feminina, viúva, se não estou em erro,Irene Papas é sujeita ao sacrifício do apedrejamento…

Aliás, a este propósito, recordo, porque este tema vieste acerar, outros dois livros que do mesmo autor merecem estar a par com as tuas asserções: O Cristo Recrucificado e A Última Tentação de Cristo.

Para quem não leu ainda, recomendo.

Quanto à essência…

Meu caro, não obstante ser agnóstico e ateu (confesso) dir-te-ei que consigo ter, ainda hoje, amigos de credos e religiões diversas (alguns, como tu, convictamente crentes lúcidos) que me ajudam a melhor compreender que as religiões, tal como as doutrinas políticas e (agora) económicas, são cada vez mais meros instrumentos circunstanciais de tentativas de influenciar, tentar modificar, o paradigma anteriormente formulado e considerado como correcto, normalmente ligado a Grupos de Interesse e influência, ao Poder.

Por isso respeito a Fé de cada Um/a sem a discutir.

A História tem-nos ensinado que a discussão da Fé, seja qual for o Objecto Divino, não leva literalmente a fim nenhum.(hoje)

Igualmente por isso e por outras razões, me transformei, como sabes, em abstencionista militante, em mero espectador talvez, impotente para modificar, pelos meios disponíveis na presente “alegada” democracia representativa, o actual estado das coisas.

Felizmente ainda vão existindo Jaimes!

um abraço solidário!

Ps. Para os amigos dos meus olhos: Esta asserção foi pré-editada em Word tamanho gigante e posteriormente copiado para este blogue

Jaime Latino Ferreira disse...

JOSÉ FERREIRA


Caríssimo,

Desculpa-me mas depois desta pega de caras, como lhe chamas, só me restam forças para ironizar:

Deve ser por isso, por teres pré-editado em Word, tamanho gigante, o comentário precioso que aqui deixaste, que me puseste no ... plural!!!

Um grande abraço igualmente solidário te o dou eu


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Março de 2010

Linda Simões disse...

A propósito das pedras que se atiram...

Devemos recolher todas e fazer um castelo...


Engraçado como as "leituras" da Igreja são estranhas...pois se é para tirar reflexões das mesmas,como a própria não consegue (não quer!?)mudar paradigmas caducos e continua hipócrita como à epoca de Cristo(crucificaram o Cordeiro!)...Com fariseus,judeus!? e toda uma assembléia que dorme no ouro dos palácios e prega a humildade para os simples mortais?!...

Muito poucos são os verdadeiros Mestres a exemplo de Cristo.E a Igreja os tem. Só não estão em cargos de Poder Supremo,salvo alguns...



Muito bom texto.Parabéns,mais uma vez.


Um abraço,


Linda Simões


ps:Manuela,belas fotos!Muitíssimo obrigada.

Beijinhos



José,

beijinhos para ti,também.


Dulce,

beijoquinhas +

Jaime Latino Ferreira disse...

LINDA SIMÕES


Minha Querida,

... pois é!

E repegando o que a Manela, mais acima diz, não sendo a Igreja uma instituição democrática no sentido estrito mas antes teocrática e assim o deverá continuar a ser, não o nego, se não é pelas maiorias que se deva reger, então que o seja pela reflexão doutrinária na sua relação com a práxis, com a coerência entre os actos e as palavras e na transparência do discurso!

Um beijinho


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Março de 2010

Dulce AC disse...

"Escrevo-Vos com o coração a sangrar e o que Vos escrevo faço-o por entender, em consciência, livremente e como crente, dever fazê-lo"

Olá Jaime.

Subscrevo-as as Suas palavras.
Também eu me solidarizando com a Vossa causa e cúmplice me torno com as Suas palavras Jaime, por terem implícita esse respeito e essa ternura a que todos têm igual direito..!

Um abraço e beijinhos, grandes.
dulce ac

Jaime Latino Ferreira disse...

DULCE AC


Minha Querida,

Já me interrogava por onde andaria a minha Amiga!

Igual respeito, todos sim mas, sem dúvida, uns mais do que outros ...

Alguns, com todo o respeito, merecem mesmo ser condenados!

Beijinhos fortes


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Março de 2010

Dulce AC disse...

Iguais direitos no devermos ser todos respeitados e amados..! E quando assim não é...
e não o é infelizmente vezes de mais...

Quando assim não é Querido Amigo Jaime impõe-se seja feita Justiça.
E que esta seja inquestionávelmente "justa" no sê-lo íntegra...

Beijinhos.
dulce ac

Jaime Latino Ferreira disse...

DULCE AC


Minha Querida Amiga,

Isso mesmo Dulce, isso mesmo!

Sabe minha querida, eu bem sei que há a justiça de Deus e a dos homens mas, quando os homens e sejam eles quais forem e ainda ou sobremaneira se ministros de Deus descem tão baixo e maculando, para sempre, os anjos, a justiça dos homens, em alguma coisa será reparadora e ela é, em si mesma, vontade e justiça de Deus!

Quando, pelo encobrimento, mais tardia o seja feita ... menos reparadora o será também ...

Deus, sendo Amor, é pela Justiça mas a mais das vezes está nas mãos dos homens, hélàs (!), aplicá-la como não!

Em vida, pelo menos e é do que se trata!

Duma coisa tenho eu a certeza:

É que aos ministros de Deus, a mão da Sua própria Justiça será pesada como em relação e nenhuns outros homens o será, pela exigência a que são por Ele obrigados!

Beijinhos


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Março de 2010