quinta-feira, 16 de abril de 2009

A LIÇÃO DE MÚSICA

Lê este texto em voz alta e em diferentes intensidades
Varia também a velocidade em que o lês
Baixo
Forte
Calmo
Rápido
Vence
Por isso
Essa timidez que te acanha e que te constrange a tomar posse do que aqui está e a extroverteres-te
Afirmando que és capaz
Lê-o como se tivesse sido escrito por ti e coloca-lhe a pontuação que entenderes
Dá-lhe também a entoação que quiseres
Integra-o ao sabor dos teus humores e de preferência experimenta voltar a lê-lo já com um humor diferente e sempre em voz alta
Tenta abstrair-te da forma em que está escrito e não te deixes condicionar pela sugestão de se tratar ou não de um poema
Sem alterares o texto
As palavras que se encontram escritas
A não ser nos pormenores do género fazendo-o
Se quiseres
Coincidir contigo próprio
Com aquele que consideras ser o teu género
Ou aquele em que te queres meter
Dramatizando
Pinta-o tu
Interpreta-o
É fundamental que o interpretes
Faz como o músico que tendo de respeitar o que está escrito na pauta
No entanto a instila da sua própria anima não deixando de descurar a técnica
Melhor
Tendo
Por isso
De apurar a técnica
Portanto
Lê-o até sair fluido e sem hesitações
Sem fífias ou desafinações como se diz em linguagem musical
Repete as partes onde as dás até se desvanecerem
Não o texto integral mas apenas essas partes e cola-as bem coladas
Ligando-as
Ao texto
Numa unidade coerente
Pontua o que lês com pausas o que te obriga
Uma vez mais
Ao estudo interpretativo que a elas as permitas fazer com toda a oportunidade
É a própria interpretação
Ela também
Que te irá fornecer a cor adicional àquilo que lês
Quebrando
Desse modo
O monocórdico de um monólogo feito de muita tecnicidade mas sem nenhuma veia
Repete e volta a repetir até o texto sair como se fosse teu
E como se o tivesses de dizer
Com toda a naturalidade e convicção
A uma imensa assembleia
Fixa
Para tal
Um ponto abstracto e tão distante quanto o possível
Cerebral e profundo
No teu interior
Pois que não há maior distância do que essa
Para que

Assim
Consigas projectar a tua voz em direcção a ele e logo a toda a assembleia
Tenta distanciar-te de ti próprio e ouve-te a ti mesmo
Como se não fosses tu que falasses mas um teu eu intermédio entre ti e o público
Entre ti e o texto também
Distancia-te mais ainda
Como se te visses
Com espírito crítico
Ao espelho
No espelho do público e no espelho do texto
E se quiseres
Para te ajudar e se assim te sentires mais à vontade no exercício que te proponho
Então
Ao leres
Apoia-te em música de fundo do teu gosto ou selecciona-a dos anexos deste blogue
Fazendo
No entanto
Sobressair a tu voz a tudo o resto
Ouve
Finalmente
Se gostas do que lês
Se não gostares do resultado final
Se calhar
É porque o texto não te merece
Se gostares
É porque a lição de música chegou ao fim
-
-
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 16 de Abril de 2009

5 comentários:

jaime latino ferreira disse...

FILOMENA


Minha Querida,

Venho em seu socorro:

Estive numa intensa batalha à volta deste texto e da sua publicação e, a ele, de facto, comecei por o intitular Ler mas depois, mudei de ideias e dei-lhe este título ...

No caminho, nem sei, inclusivé, se não cheguei a clicar em editar mensagem, daí a confusão que Lhe criei!

Mas, agora, já está.

Hoje vou estar fora e só regressarei muito tarde.

Por isso não estranhem se não me virem passar por aqui.

Beijinhos


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 16 de Abril de 2009

manuela baptista disse...

A Ler ou a Aprender Estamos por Cá


Não estranhem?!
Podem estar certos que,

seja noite ou madrugada
faça sol ou quarto minguante
chuva ou trovoada
ventania ou brisa do mar
confusão ou calmaria
jogue o Porto ou o Sporting
seja 5ª ou 6ª feira

Ele passará por aqui!!

Leonard Bernstein foi o meu melhor professor de música, eu não perdia um dos seus concertos para jovens!

Manuela Baptista

Filomena disse...

Ó Jaime!

Explique-me, por favor, porque chorei ao ler...

Aprendi a lição?
Li bem a pauta?
Preciso de aprender mais e melhor?

Lindo demais, Meu Amigo Poeta, tão lindo que continuo a chorar.

Mas que raio de tutora lhe havia de cair na sorte!

Um BEIJO aos dois( o Rouxinol e a Pomba)

Filomena

manuela baptista disse...

Uma história para consolar a Filomena, ou, de como as andorinhas que amam os Príncipes tomam conta dos Poetas...

"Quando se levantou a Lua, voou outra vez para junto do Príncipe Feliz.

-Queres algum recado para o Egipto?- gritou.Já estou de partida.

-Andorinha, andorinha, pequena andorinha- disse o príncipe-não ficas comigo mais uma noite?

-Esperam-me no Egipto- respondeu a andorinha.

-Andorinha,andorinha, pequena andorinha- disse o príncipe- lá longe, do outro lado da cidade, vejo um jovem num sotão. Está debruçado sobre uma mesa coberta de papéis, e num copo ao seu lado há violetas murchas. O cabelo é castanho e espigado, os lábios são vermelhos como a romã e tem os olhos grandes e sonhadores. Está a tentar acabar uma peça encomendada pelo director do teatro, mas tem frio demais para continuar a escrever. Já não há lume na braseira e a fome enfraqueceu-o.

- Vou ficar contigo mais uma noite- disse a andorinha, que no fundo tinha bom coração.

-Ai de mim!-disse o príncipe- Os meus olhos são tudo o que me resta. São feitos de safiras preciosas que foram trazidas da Índia há mais de mil anos. Arranca um deles e vai levar-lho. Ele irá vendê-lo ao joalheiro, comprará lenha e já poderá acabar a sua obra.

-Querido príncipe-disse a andorinha-não posso fazer uma coisa dessas. E começou a chorar.

-Andorinha,andorinha, pequena andorinha- disse o príncipe- faz como te ordeno.

Então a andorinha arrancou o olho ao príncipe e voou para o sotão do escritor."

Oscar Wilde, "O Príncipe Feliz"

Manuela Baptista

jaime latino ferreira disse...

DE COMO AS POMBAS QUE AMAM OS ROUXINOIS OS TRANSFORMAM E A ELAS EM PRÍNCIPES E PRINCESAS QUE SÃO POETAS


Mastiga, mastiga o teu canto rouxinol, disse-lhe a pomba, que o canto em palavra se transformará e esta, continuando a ser mastigada, sílaba a sílaba e por inteiro e a frase toda e todo o texto, forçada, sincopada e pausadamente e em staccatto como se diz em linguagem musical afinando a sua dicção, iluminar-se-á até à claridade das jóias, safiras por exemplo, que poderemos, tu e eu, distribuir como olhos que iluminem o coração de todos os poetas que todos, uns mais e outros menos o somos.

Com elas, respondeu-lhe então e afirmativo o rouxinol, poderemos aquecer os corações enregelados, empedrenidos alguns e ajudar a que desabrochem em cor irradiante que acordem as almas adormecidas, anestesiadas daqueles que os há por aí e que são muitos.

Não vêem, disseram ambos em coro, a nossa querida Filomena!?

Como ela chora e a nós nos emudece deixando-nos sem palavras e no silêncio cúmplice de um canto que grita e volta a gritar, eu quero, eu quero, eu quero mais até chorar!?

Mais música, mais diálogo, mais palavra e humanidade!

Transfigurados, pomba e rouxinol, andorinha ou cuco, cotovia porque não, transformaram-se então em princesas e príncipes e dando-se as mãos, voaram até à Lua Cheia, iluminada de um imenso brilho que se derramava abundante e como lágrimas no mar.

E foram felizes para sempre!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 16 de Abril de 2009