quinta-feira, 23 de abril de 2009

PRÉ-DEMOCRACIA

Há muitos anos já, ainda antes do 25 de Abril de 1974, simpatizante que era de uma certa extrema-esquerda, imagine-se (!), percorria-a, no entanto, a preocupação em saber, na linguagem codificada que a caracterizava recheada de jargões, hoje, dificilmente compreensíveis, a preocupação, escrevia, eu pelo menos tinha-a (!), em saber como chegar às massas, iguais jargões estes que mais não manifestavam do que a vontade de querer saber como chegar, tocar o Povo nas suas preocupações e mobilizá-Lo a nosso, seu favor.
Corriam então rios de tinta sobre a matéria e essa preocupação, deontológica afinal, faça-se justiça (!), foi alvo das mais acesas polémicas e fracturas que a esse espectro político o ajudaram a estiolar-se numa miríade de organizações que entretanto e com o passar dos anos ou se extinguiram, ou evoluiram, ou se radicalizaram tanto que se acabaram por clandestinizar em perigosas derivas que ainda hoje envenenam mas interpelam, por mais irrazoáveis e condenáveis que sejam, o próprio sistema.
No entanto, a pergunta inicial, reformulada, fazia todo o sentido:
Sem abdicar de mim próprio nem dos meus objectivos, como seria então possível tocar o Povo a partir das suas angústias e preocupações, sem cair na demagogia, e mobilizá-lo em catarse susceptível de criar novos e regeneradores impulsos catalisadores!?
Assim reformularia eu a questão que então se fechava em corredores estreitos de reflexão, capelinhas, a mais das vezes prenhes de profundos facciosismos, encerradas que estavam em linguagens herméticas que apenas a todos desmobilizavam, ao Povo que nem delas se chegava a interessar e às supostas vanguardas que paulatinamente iam constatando o crescente isolamento a que se remetiam, cada vez mais reduzidas a seitas intolerantes, se é que alguma vez o tinham deixado de ser.
O tempo e as águas correram, entretanto, por de baixo das pontes e surpreenderam-nos a todos e em primeiro lugar às Elites que resistiram à voragem cada vez mais acelerada da História e que das nossas angústias, afinal, a custo e com que custos mal se compadece ...!
Umas, fechadas na hermética do discurso religioso, as elites políticas, balcanizadas (!), outras refugiadas nos pedestais das suas artes, pensamentos filosóficos, sociológicos, antropológicos ou psicológicos, outras ainda, na escolástica cada vez mais incompreensível, imprevisível e falível da economia, da jurisprudência e do próprio conhecimento científico que se acumula em progressão crescente e dificilmente assimilável, atempadamente (!), nas respostas que de súbito são pedidas com urgência para atalhar as crises e a maior, a das alterações climáticas, a Ecológica que percute no subconsciente e exorta ao entendimento, à conjugação transversal dos saberes nas pontes que consigam estabelecer entre si e na humildade de considerar, afinal, os limites que de per si, isolados, aos saberes específicos os toldam e tanto mais quanto de costas voltadas, uns por todos os outros omitidos!
Como mobilizar então o Povo, permanece a pergunta (!?), para os imensos desafios, inadiáveis desafios que nos interpelam aqui e agora, hoje!?
Antes de mais, respondo, seduzindo as Elites e seduzi-las não é ter um discurso fechado mas aberto e sublimado em linguagem comum, poética (!), e na busca dos mínimos, repito, dos mínimos denominadores que a Elas as não excluam e Lhes sejam comuns!
Extremando, exemplifico:
Se eu me puser com um discurso piedoso, isto é, para os crentes, na tentativa vã de lhes alimentar a Fé, porque o jargão da fé, ele também, tende a ser, quando percutido à exaustão e para dentro, no círculo dos seus eleitos, cada vez mais pobre logo pelo ruído repetitivo que o vai tornando, na invocação em vão (!), monocórdico, despido de harmónicos e cada vez mais hermético, as simples leis da acústica o sabem comprovar (!), e do qual, ao contrário do pretendido, irremediavelmente acabo por afastar os próprios crentes e antagonizando quem com ele, logo à partida, não se identifica.
Logo também, em todas as áreas do saber se pode dizer o mesmo, fechamento ou abertura!?
Facciosismo pré-democrático ou democracia plena!?
No entendimento que permita fazer face ao inadiável e que a minha Obra potencia na racionalidade e na equidistância que dela se projecta e sem abdicar de mim mesmo ou das minhas convicções, sedutora que possa ser das Elites que o é
e como logo transparece deste blogue e das minhas incursões entrelaçadas pela blogosfera.
Quanto mais se a ela, à minha Obra, a considerarmos no seu já vastíssimo conjunto e que se vai perdendo no tempo ...!
Seduzam-se pois as Elites na identificação com o Povo, isto é, com o singular que não escamoteio e que se é par, ímpar o é ...!
De que estais à espera!?
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Abril de 2009

13 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

81

( Repesco da caixa de reflexões anterior )


Arminda de Seu nome
Conte muitos
Conte-nos a História
Desses belos
Anos que se passam
Como selos
Enfeitam da beleza
De quem saiba vê-los

Muitos parabéns e desejos de saúde e alegria!


Manuela e Jaime
Estoril, 23 de Abril de 2009

jaime latino ferreira disse...

NINAA


Seja bem vinda ao grupo daqueles que me lêem e que se registam como tal!

Esteja como se estivesse em Sua casa


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Abril de 2009

manuela baptista disse...

Intermezzo

Na Pré-Democracia eu tinha uma ideia muito vaga do que poderia ser a Democracia.

Por exemplo, um dos meus piores professores era democrata. Quando uma de nós fazia uma asneira ou respondia errado a uma questão, ficávamos todas de castigo solidárias umas com as outras, para aprender.

Aprender a democracia custa e vivê-la também.

Quando, arrumado o pensamento cristão num corredor da alma e ensombrada e assombrada pela Liberdade e pela Fraternidade, me propus colaborar no trabalho de massas, foi uma tristeza!

Apelidada de elitista, passei a preferir algumas elites. Porque elites existem em todo o lado.

O povo tem elites, os artistas têm elites, os ricos têm elites, os intelectuais têm as suas elites.

Mais tarde reconciliei-me com as massas, graças a uma paixão pela culinária.

Logo, eu sou elitista e estou perfeitamente seduzida!

Bolas Jaime! Que este teu texto é complicado e eu neste momento fiquei baralhada comigo própria!

Voltarei aos jargões mais tarde.

PS1: espero que a Avó Arminda tenha tido uma festa bonita!

PS2: espero que a Filomena já não esteja aos pedaços.

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

JARGÕES

O jargão das tias é "tefonar" e "tá a ver".

O jargão do Cristiano Ronaldo é "nós acreditámos"

O jargão do Mário Crespo é "vamos fazer um curtíssimo intervalo"

O jargão dos católicos é "a pessoa humana"

O jargão do Eduardo Lourenço é "não é?"

O jargão dos capitães de Abril é "Pá"

Os jargões tramam as elites?

Manuela Baptista

jaime latino ferreira disse...

JARGÕES


Minha Querida Manuela,

Os jargões, em si mesmos, são redutores como as palavras o podem ser também.

Já entrelaçados uns nos outros, repara:

Fui tefonar e tá a ver (!?), fizemos um curtíssimo intervalo, não é (!?) e logo ao fazê-lo, nós acreditámos na pessoa humana!

Donde se conclui que para acreditar, não há nada como intervalar.

Os jargões só tramam as elites se elas, preconceituosamente, não se souberem ouvir umas às outras, pá!!!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Abril de 2009

jaime latino ferreira disse...

CONTINUANDO


Depois de quase uma semana no exercício informal da democracia participada, voltei às minhas responsabilidades institucionais, da responsabilidade de uma página onde me represento a mim mesmo, embora reflectindo sempre o pulsar do Povo que por aqui circula e no qual, evidentemente, me incluo.

Andei assim numa espécie de PREC desaustinado até que, finalmente, tocaram as trompetas e as vozes das minhas amigas se fizeram ouvir chamando-me à pedra e à responsabilidade das minhas funções que retomo com redobrado gosto.

Ouvir o que me têm para dizer é sempre bom e pesem ou por maioria de razão todas as brincadeiras às quais não me descarto e sou, irresistivelmente, por elas atraído e tanto assim é que o resultado foi que antes do texto sobre a Democracia e ao encontro do sentir geral, a minha mulher ocupou a centésima lição e de seguida e antes do texto prometido, surgiu e ao sabor este último, a Pré-Democracia.

A Pré-Democracia é quando ainda estamos a aprender a falar, a escrever, a comunicar e metaforicamente ela surge, por isso, antes do dia 25 de Abril.

Não será, como o escreve minha mulher, de leitura fácil mas hermético também não é e como ela o reforça ainda, também não é fácil antes custoso viver em Liberdade, em Democracia por suposto.

Ficar-se baralhado com a sua leitura pode não ser má coisa, antes querer dizer que a leitura nos põe a pensar e a interpelarmo-nos a nós próprios.

Em si mesmo, isso já é muito bom!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Abril de 2009

Filomena disse...

Manuela e Jaime!


Com muito cansaço e alguma Democracia aqui vai o meu BOM DIA

Acreditem que não li a página do Jaime, como diz o Povo ando atascadinha de trabalho.

Mas, mais logo hei-de ler. Prometo


Um beijinho


Filomena

manuela baptista disse...

O AVÔ VICTOR

Na Pré-Democracia conheci um Homem, avô e bisavô paterno dos meus sobrinhos, que não sendo filiado nem militante de nenhum partido,clandestino é claro,solidário com as elites operárias festejava todos os anos o 1º de Maio, fazendo o seu próprio feriado.

Nesse tempo, faltar no dia 1º de Maio era perigoso, mas o patrão deste homem respeitava-o porque ele se fazia respeitar.

Este patrão, era um empresário que deveria ser um exemplo para muitos empresários actuais. Dono de várias fábricas, quando se viu na eminência de ter de fechar algumas e despedir Pessoas,não pessoal, reciclou e formou-as abrindo um restaurante, o velho "Palm Beach" em Cascais que teve sucesso durante muito tempo. Ainda permanece ali, sobre a praia da Conceição à espera de ser reciclado, mas sem sucesso.

E assim em cada 1º de Maio, o avô Victor agarrava na família, que por sua vez faltava ao trabalho e à escola, e escolhendo um bom restaurante de peixe, brindava aos operários corajosos do mundo inteiro.

Fica aqui este testemunho para que os seus netos e bisnetos, os primeiros muito pequenos para se lembrarem da festa, os segundos porque ainda não eram nascidos, saibam que a Pré-Democracia levou tempo a construir e construiu-se graças à coragem da elite das elites, que foi tornando este país um pouco mais claro.

Manuela Baptista

Jaime Latino Ferreira disse...

O AVÔ VICTOR


Minha Querida,

O avô dos teus sobrinhos era, seguramente, um legítimo, nobre representante da Aristocracia Operária que, como todas as aristocracias, Elites na verdadeira acepção, quantas vezes e por desdém, tão maltratadas são!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Abril de 2009

Jaime Latino Ferreira disse...

FILOMENA


Boa Amiga,

Desentasque-se então já que logo, ao soar das vinte e quatro badaladas, a Democracia é devida!

Beijinhos solidários


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Abril de 2009

jaime latino ferreira disse...

ANIVERSÁRIO


Hoje faz anos a Ana, a mãe de meu filho João!

Os acasos da vida, levaram-nos à separação, à quebra desse vínculo que unia mulher e marido ...

Entre outras, porém, uma coisa é certa:

O vínculo maior que unia o filho, à mãe e ao pai e todos entre si e pesem os custos que uma tal decisão sempre tem, esse nunca se quebrou ...!

Nenhum de nós, mãe ou pai, alguma vez utilizámos o nosso filho como moeda de troca ou arma de arremesso e por inerência, o nosso filho também nunca agiu com tais intuitos.

Essa trindade que nos unia, nunca foi quebrada e assim, uma verdadeira amizade se frutificou entre nós.

Neste dia 24, aproveito, portanto, a oportunidade não só para homenagear a mãe do meu filho como para mandar-lhe daqui um grande beijinho de parabéns e de felicidade acrescida!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Abril de 2009

Filomena disse...

Boa tarde!

Manuela e Jaime, Jaime e Manuela!


Gostei do que li, gostei principalmente do Avô Victor.

Bom Feriado para os dois e para os outros visitantes desta Casa.


Um beijinho


Filomena

manuela baptista disse...

Noite de Abril

Hoje, noite de Abril, sem lua,
A minha rua
É outra rua.

Talvez por ser mais que nenhuma escura
E bailar o vento leste
A noite de hoje veste
As coisas conhecidas de aventura.

Uma rua nova destruiu a rua do costume.
Como se sempre nela houvesse este perfume
De vento leste e Primavera,
A sombra dos muros espera

Alguém que ela conhece.
E às vezes, o silêncio estremece
Como se fosse a hora de passar alguém
Que só hoje não vem.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I

Nesta enorme Abrilada, parabéns à Ana!

Manuela Baptista