segunda-feira, 13 de abril de 2009

SINAIS DE ENCONTRO

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1. A recente homilia do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, proferida na Sé Catedral de Lisboa a 11 de Abril, na vigília pascal, é sintomática de uma inflexão expressa e institucional de atitude que vai no sentido do estabelecimento de pontes entre o factual, a Vida e a Fé ou, se quisermos, entre os caminhos da ciência e os da religião que muito me apraz registar;

2. Os textos, os Textos Sagrados não são para serem interpretados à letra numa visão redutora e constrangedoramente maniqueísta assim como, a interpretação científica essa, também não é um dogma insusceptível de vir a ser questionado no tempo pelos próprios factos que são, eles próprios, o traço distintivo e fundamento da experimentação que logo questiona o que antes era tido como certo e inabalável;

3. Nela, na Sua homilia, o Cardeal Patriarca de Lisboa, ironica mas profunda e oportunamente a par com os tempos e os seus sinais, celebra os cento e cinquenta anos da Teoria da Evolução das Espécies de Darwin e reflecte sobre os possíveis encontros entre a herança científica por um lado e a riquíssima simbologia que a liturgia da Palavra encerra, princípio e fim, como escreve, de todas as coisas e desde que não reduzida e mutilada dos seus múltiplos sentidos, da sua simbólica que, logo por isso, a eterniza no tempo;

4. É chegado o tempo do diálogo, não apenas inter-religioso mas inter-profi/essional, daquilo que se professa (!), entre os que crêem, os que não se pronunciam e os que não crêem de todo, entre a ciência e a religião também, uma vez que persistir no aprofundar de fracturas apenas satisfaz os facciosos e extremistas de todos os matizes, todos os fundamentalismos religiosos ou pseudo-científicos alimentando-os no alibi, que sempre lhes é favorável (!), dos choques de culturas ou de religiões, por vezes apenas de supostos temas fracturantes e inultrapassáveis que sempre se dispõem a cavar;

5. Aproveito, já agora, para sublinhar um ponto que me é particularmente querido na gestão dos saberes e sem o qual, na omissão da sua soberania se esfumarão as pontes conducentes ao aprofundar desse mesmo diálogo:
Deixai-me, antes de mais, dizer que símbolo é, entre outras coisas, um elemento descritivo ou narrativo ao qual se pode atribuir mais de um significado, do qual se pode fazer mais de uma leitura (... in Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa ).
A simbologia é a ferramenta e o critério aferidor da Arte que se eterniza, exactamente, por subsistir à prova implacável do tempo tornando-se perene ao nela se fazer ver não apenas o que no momento parece mas o que dela se desvenda e emerge numa intemporalidade sem limites.
A Bíblia e para lá de tudo o resto, também é uma Obra de Arte, um texto literário que se eterniza no tempo e mantendo toda a sua actualidade alegórica e metafórica porque sempre susceptível de reinterpretação, de actualização no espaço como no tempo.
Se o não fosse, se não fosse uma Obra de Arte, não teria subsistido!
E à Arte, independentemente da espuma dos dias que faz, quantas vezes, indignar os puritanos de todos os matizes, nas pedradas no charco que quantas vezes encarna e simboliza, como lugar sublime de encontro que é e logo porque também não há encontro sem interpelação ou choque emocional, de criadora de pontes que também é, é urgente, imperioso, que a ela também lhe seja reconhecido o seu devido lugar soberano e inclusivé no interior da própria Igreja que de patrona, quantas vezes dela e da Cultura se tornou ausente e carente, fechada e triste, paupérrima.
Ausente dela, da Arte da criação!
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 13 de Abril de 2009

7 comentários:

jaime latino ferreira disse...

A CRIAÇÃO E BEAGLE


A Criação, oratória de Haydn, é composta por 3 partes. A primeira delas, inicia-se com um prólogo que aqui se ouve, intitulado Die Vorstellung des Chaos, A Representação do Caos.


Beagle era o nome do navio que aqui se ilustra, no qual Charles Darwin fez a viagem que lhe permitiu chegar ao livro aqui referenciado e do qual se comemoram, no ano que passa, os cento e cinquenta anos sobre a sua publicação.


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Abril de 2009

jaime latino ferreira disse...

YADI


Bem vinda seja ao conjunto dos meus seguidores que como saberá, desejo que não sejam seguidistas!

Desejo que sejam coloquiais, interactivos e dispostos à racionalidade, à contraditoriedade, à reflexividade também.

E ainda que esta apenas se reflicta num silêncio criador.

Seja pois bem vinda!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Abril de 2009

jaime latino ferreira disse...

PARA OS MAIS RECALCITRANTES


Já repararam quantas vezes, na execução de uma obra como esta, A Criação de Haydn, que evolui no compasso quaternário, pelas mãos do maestro e na mestria renascentista das suas poses, no ar se desenha o sinal da cruz!?

Isto para não falar no sublime das sonoridades que são palavra, Palavra em sentido amplo e mais próximo do Verbo, que a sua simbologia pela música sugere e sublinha!?

E querem mais ...!?

... e que num templo se recria entre os vitrais e o poder da própria Criação!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Abril de 2009

L&L-Arte de pensar e expressar disse...

OLA GOSTEI DE SEU BLOG PARABENS QUANDO DER VISITE O MEU WWW.PALAVRASARTEBLABLABLA.BLOGSPOT.COM

manuela baptista disse...

Devagar chega-se ao Longe?

Para Galileu, foram três séculos.
Para Darwin, bastarão 150 anos?

Vamos devagar, porque podemos escorregar...

Se, como diz D. José Policarpo, a ciência cai na ousadia de pretender desvendar o sentido definitivo do universo e da vida, eu também penso que não existem conceitos definitivos, mas quanto à ousadia, bem podíamos, nós cristãos, ser um pouco mais ousados. Agora. Não daqui a 150 anos.

A arte, para ser Arte, também têm que ser ousada.

Manuela Baptista

jaime latino ferreira disse...

L&L


Ainda bem que gostou do meu blogue e fique descansada que, oportunamente, visitá-la-ei!

Obrigado


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Abril de 2009

jaime latino ferreira disse...

MANUELA


Minha Querida,

Tu podes, eu posso, nós podemos, devemos ser mais ousados!

Não devemos ter medo de o ser e, por paradoxal que possa parecer, sinto-me escudado, podes tu crer (!), em o ser.

Não daqui a cento e cinquenta anos ou cento e cinquenta anos depois de os factos acontecerem mas desde já, avant la lettre mesmo (!) e já que a acelaração vertiginosa dos tempos se vai deixando de compadecer com delays, com tal morosidade que não irá, concerteza esperar que o Universo seja explorado até aos confins para que a essa exploração lhe seja dada a benção!

Tu podes, eu posso, nós podemos, imperativamente devemos ser mais ousados!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Abril de 2009